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»Subsecretaria de Políticas para as Mulheres firma parceria com Secretaria de Administração Penitenciária

07/06/2013


Atrás do portão

Um portão de ferro enorme e sem respiração nos recebe. Como uma boca faminta, ele abre, nos engole e fecha.

Ao sermos engolidas, somos reviradas e tudo o que está em ordem sai do lugar: seu vestido, sua meia, seu sapato, sua carteira.... De repente estão em uma mão desconhecida.

Telefones, iphones e qualquer outro aparelho, que te conecte com o mundo, devem ser deixados na recepção junto com a identidade.

Solitária com olhos se misturam à paisagem. E esses olhos nos perguntam: "vocês são dos direitos humanos?".

Não. Somos palhaças.

E os olhos se calam sem entender a resposta.

Mais adiante, grade, cadeados e chaves, grade, cadeados e chaves, grade, cadeados e chaves. Trio que, a partir de agora, é nosso companheiro.

Cadê as mulheres? Cadê as mulheres? Só vejo agentes e nosso trio: grade, cadeados e chaves.

Elas estão presas e ficam no fundo, não ficam na luz. Ah, então é por isso que existe banho de sol. Ah.

Minha cabeça não parava de pensar.

Chegou a hora. Finalmente vão pegar as mulheres. E vem uma por uma.

"Na parede, na parede". Elas têm que ficar na parede? Pensei. "Na parede, na parede".

Ih uma grávida, caramba que barrigão. "Na parede, na parede".

Olha aquela toda arrumada, com flor no cabelo, que legal! "Na parede, na parede". "Pronto, estão todas aí".

Tínhamos 11 mulheres na parede, na parede, olhando pra gente.

Fomos até elas, nos misturando e pegando em sua mãos, as tirando da parede, da parede. 

Roda, olho no olho, risos, correndo.

Para de correr, em fila.

"A gente aqui só anda em fila". Mas agora é pra ser livre, correr pra qualquer lugar.
Elas gostaram de poder correr para qualquer lugar.

Cada uma recebeu o seu nariz de palhaça, a grávida ganhou dois, claro: o dela e o da Maria Eduarda, que vai nascer mês que vem.

Acabou a oficina. Rimos muito.

Agora vamos ao espetáculo? Ele vai acontecer dentro da pequena biblioteca onde só cabem elas e a gente.

"Vocês vão fazer espetáculo pra gente?"

Ué vamos, respondi.

A agente: "Elas vão ter que ficar aqui com vocês, enquanto vocês se arrumam". 

Deixa a gente colocar pelo menos a roupa e elas vêm. "Ok, mas tem que ser rápido, elas tem que vir logo pra cá".

Em poucos minutos, eu, Verinha, Sam e Geni estávamos vivendo uma cena inédita em nossas vidas de Marias: 11 olhares sem piscar nos vendo virar palhaças. A cada grampo, a cada meia, a cada cabelo, a cada cara branca começando a ser pintada. Um momento mágico acontecia naquela sala.

Não sei descrever em palavras, só sentir.

Ao final do espetáculo, a pergunta de uma delas: "Acabou o nosso tempo? A gente ainda tem tempo né?". A pergunta caiu como um raio nos acordando para a realidade. Elas precisam voltar para suas celas.

Não. Estava tão legal!

A despedida... Abraços e olhos com lágrimas. Obrigada daqui e obrigada de lá.
A agente trouxe uma maquina fotográfica. Oba! Vamos ter o rosto de cada uma imortalizado.

A grávida pediu muito para tirar uma foto com o grupo. "Tira, por favor, da minha barriga. Eu ainda não tenho nenhuma foto grávida".

Lembrei-me da minha gravidez. Tirei foto do primeiro mês, do segundo, do terceiro e fui até o nono fazendo os números com as mãos. Ela vai parir mês que vem e até hoje não tinha tirado uma foto da barriga. Respirei!

Que bom que estamos aqui. Só assim ela vai ter uma foto de oito meses de gravidez.
São detentas, eu sei. Fizerem besteira, eu sei. Mas a gente se envolve com o ser humano, não com o que elas fizeram. Muitas saem de lá e voltam, pois não conseguem se manter no caminho "certo", mas se aqui fora tá difícil pra gente, imagina para uma ex-presidiária.

Soubemos bem pouco da vida de cada uma, mas tenho certeza que essa noite dormiremos conectadas.

Espero de coração que Cíntias, Ana Paulas, Fátimas, Suelens, consigam dar a volta por cima e tenham o direito a uma vida digna, sem celas, sem dormir no chão, sem superlotação, sem solitárias.

E agradeço a uma bola vermelha pela oportunidade que me foi dada hoje.

Este é o depoimento de Karla Concá, palhaça do grupo As Marias da Graça, depois de ter realizado uma oficina no Patronato Magarinos Torres. Esta atividade faz parte de uma parceria firmada entre a Subsecretaria de Políticas para as Mulheres, da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, e a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAP), que vai acontecer ao longo de 2013.

“A população carcerária feminina no mundo, e também no Brasil, é pequena se comparada à masculina. Por conta disso, o sistema prisional pode ser tido como masculino, até mesmo se analisarmos a sua estrutura física. Por isso é tão importante pensarmos sobre a população carcerária feminina e a parceria, com a Secretaria de Administração Penitenciária, é no sentido de provocar a discussão e levar informações sobre direitos e cidadania para as mulheres em situação prisional”, destacou a subsecretária Angela Fontes.

Segundo dados da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária, o quantitativo feminino aumentou, mas a idade em que a mulher entra para o crime diminuiu. O atual perfil das mulheres presas demonstra o quanto elas integram as estatísticas de vulnerabilidade e exclusão social: a maioria está entre 20 e 30 anos, são chefes de família, têm mais de dois filhos menores de idade e têm baixa escolaridade. A quase totalidade das mulheres desenvolvia atividades de baixa remuneração.

O objetivo da parceria é o de provocar discussão através de palestras e oficinas que tratam de temas como cidadania, mercado de trabalho, saúde, entre outros, de uma forma lúdica e participativa.

 

 

 

 

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